Quem ensina a máquina a ver
Em maio de 2024, o Pentágono atribuiu à Palantir um contrato de 445 milhões de euros para o Maven Smart System, uma ferramenta de IA que ajuda analistas militares a identificar pontos de interesse. Não dispara. Não dá a ordem final. Não substitui o operador humano. Faz algo mais subtil: compõe a realidade antes da decisão. Define que sinal sobe na hierarquia, que imagem pode conter ameaça, que fragmento chega primeiro. O homem continua no circuito. Mas já não chega primeiro à realidade.
Uma tecnologia torna-se, assim, poder. Primeiro ajuda. Depois habitua. Por fim, antecipa-se ao olhar. A IA não precisa de decidir por nós. Basta que decida o que vemos antes de o vermos. O novo poder não começa quando a máquina manda. Começa quando prepara a realidade que outros julgam escolher livremente.