Miguel Sousa SoaresMSS
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LinkedIn · Ensaio · junho de 2026

A visão de que a Europa precisa

Um país pode perder soberania sem perder território. Basta deixar de ver.

Há um troço de terra, na Ucrânia, onde ninguém anda de carro. A quinze quilómetros da linha da frente, qualquer motor que se mexa é visto. E o que é visto, hoje, dura minutos. Não são tanques que o impõem. São drones. Baratos, incansáveis, aos milhares, com uma só função: ver. E ver, aqui, é transformar qualquer movimento num alvo.

Foi assim que a guerra mudou de eixo. A força deixou de bastar. Passou a vencer quem vê primeiro, decide mais depressa e obriga o adversário a gastar pior.

A Ucrânia produzia alguns milhares de drones em 2022. Em 2024 passou os dois milhões, com projeção de vários milhões para 2025, segundo o RUSI. Mas o número importa menos do que o relógio: o que se aprende numa trincheira numa semana está montado na seguinte. A guerra industrial não desapareceu. Tornou-se mais rápida e menos obediente aos calendários do Estado.

Por baixo desta corrida há uma aritmética implacável. Um drone de dezenas de milhares de euros obriga a uma resposta de milhões. A perceção ficou barata, a defesa ficou cara, e o erro passou a ter preço industrial. O Médio Oriente repetiu a lição: em abril de 2024, travar o ataque iraniano custou muito mais do que lançá-lo. A nova pergunta já não é quem destrói quem. É quem força quem a empobrecer para se proteger.

A soberania já não é só território, fronteira e bandeira. A soberania começa na visão. Quem não controla o que vê não controla o que decide. Quem depende dos olhos dos outros depende do tempo dos outros, e quem depende do tempo dos outros já entregou parte da sua autonomia.

Olhamos para o mapa e vemos um país pequeno. A guerra moderna, e a economia que a sustenta, veem um posto avançado sobre o Atlântico: o maior espaço marítimo nacional da União Europeia, cerca de quatro milhões de quilómetros quadrados, atravessado pelos cabos submarinos que ligam o mundo.

E isto já não é hipótese. Só em 2025, a Marinha acompanhou 69 navios russos, 31 deles de guerra, e realizou 373 ações de vigilância à chamada frota-fantasma em águas sob soberania ou jurisdição nacional. Já somos obrigados a vigiar o nosso mar; falta decidir se o fazemos com olhos nossos. Temos uma geografia enorme e uma cultura estratégica pequena. Falamos do mar como memória e paisagem; raramente como sistema de poder. E poder que não se vê é poder que se perde.

A TEKEVER mostra que isto não é só vulnerabilidade. O contrato com a Agência Europeia de Segurança Marítima para vigiar o mar europeu com sistemas não tripulados interessa menos pelo valor do que pelo sinal: Portugal pode deixar de ser apenas território observado e passar a ser produtor de visão. Quem fornece os olhos de que o continente precisa deixou de ser periferia.

Mas um país não se torna indispensável por ter uma exceção. Torna-se indispensável quando percebe o que essa exceção revela. Portugal tem mar para vigiar, cabos para proteger e ilhas que projetam o Atlântico.

Portugal não tem de fingir que é grande. A pequenez só é destino quando se transforma em desculpa.

Um dia, alguém saberá o que se passa no mar português melhor do que nós. Se não formos nós, isso já não será apenas uma falha tecnológica. Será uma falha de soberania.

Ensaio de Miguel Sousa Soares, publicado originalmente no LinkedIn em junho de 2026. Esta página é o arquivo pessoal do autor.

Miguel Sousa Soares é economista e analista de geoeconomia, com mais de vinte anos de experiência em estratégia e corporate finance. Escreve na Visão, no Expresso e no Jornal de Notícias e tem participado na NOW.