O Que Será de Nós?
Em 1914, Henry Ford percebeu que uma fábrica não podia tratar o homem que a fazia funcionar apenas como custo. Durante um século, salário, consumo e Estado fecharam um circuito. A inteligência artificial pode desligá-lo, e ainda mal começámos a preparar o que vem a seguir.
«A máquina substitui o trabalhador no posto, mas não no circuito.»
Em janeiro de 1914, Henry Ford fez algo que os seus pares de Detroit acharam descabido. Mais do que duplicou o salário dos operários da linha de montagem, elevando-o a cinco dólares por dia, e encurtou o seu turno para oito horas. A imprensa falou em loucura e em ataque aos lucros. Ford não estava apenas a ser generoso. Estava a resolver um problema industrial e a perceber uma verdade económica maior: uma fábrica não podia tratar o homem que a fazia funcionar apenas como custo.
Foi esse o pacto que sustentou grande parte do capitalismo do século XX. O salário deixou de ser apenas uma despesa a comprimir: era também procura, impostos e estabilidade social. Durante décadas, a mesma pessoa foi, ao mesmo tempo, quem produzia, quem comprava e quem pagava. Era esse triplo papel, alojado num único corpo, que fechava o circuito.
A pergunta, por isso, não é se haverá mais riqueza. Haverá. É como chegará essa riqueza a quem deixou de a receber pelo trabalho.