Quem Paga a Conta da Inteligência Artificial
A inteligência artificial não vive na nuvem. Vive em fábricas de computadores ligadas à rede elétrica, que consomem como cidades inteiras. E alguém vai pagar essa conta.
Espaço semanal de inteligência artificial na NOW, emitido a 23 de outubro de 2026 · 12 minutos · Ver no YouTube
«A dimensão física da inteligência artificial é gigante.»
Quem paga a conta da inteligência artificial
Por trás do ecrã há centros de dados: grandes fábricas de computadores a funcionar a cada segundo. Consomem quantidades enormes de eletricidade. E esse custo não desaparece.
- Na Irlanda, os centros de dados consumiam 5% da eletricidade do país em 2015. Em 2025, já consumiam 23%: mais do que todas as casas das cidades juntas (CSO 2025).
- Portugal pode seguir o mesmo caminho. Só o projeto de Sines prevê até 1,2 gigawatts. A funcionar em pleno, é cerca de um quinto de toda a eletricidade que o país consumiu em 2025, o ano do recorde.
- Há duas contas: o reforço da rede (linhas de alta tensão, subestações) e o próprio consumo. Se quem provoca o custo não o paga, paga-o quem tem um contador em casa, na componente de redes da fatura da luz.
- E há a soberania. Dados guardados em Portugal, em servidores de empresas americanas, continuam ao alcance da lei americana (CLOUD Act).
Ainda podemos acreditar no que vemos?
As eleições no Brasil são o laboratório dos deepfakes: vídeos e vozes falsos, gerados por inteligência artificial, com a aparência de pessoas reais.
- A lei eleitoral brasileira tem dois degraus. A inteligência artificial pode ser usada em campanha, com aviso, em mensagens e retoques de imagem. Mas qualquer vídeo realista com a imagem verdadeira de um candidato é proibido.
- O Tribunal Superior Eleitoral retira estes conteúdos das redes em poucas horas. O problema é que, nessas horas, já foram partilhados e tidos como verdade.
- O tribunal fez uma parceria com uma empresa especializada em voz para detetar e bloquear vozes clonadas. Chegámos aqui: só a inteligência artificial já consegue policiar a inteligência artificial.
Todas as sextas-feiras,
às 14h30, na NOW.
A IA Não É uma Revolução Digital. É uma Revolução Energética
Miguel Sousa Soares é economista e analista de geoeconomia e inteligência artificial, com mais de vinte anos de experiência em estratégia e corporate finance. Escreve na Visão, no Expresso, no Jornal de Notícias e no Correio da Manhã e comenta inteligência artificial na NOW, às sextas-feiras.