O Fornecedor Que Apita
O gás americano ajudou a Europa a sair da dependência russa. Mas quem vende a alternativa também escreve as regras, e ainda não disse se a União Europeia conta como um país ou como vinte e sete.
Sexta-feira, 9 de outubro. Em Amesterdão, a referência do gás europeu está perto dos 80 euros por megawatt-hora, duas vezes e meia o preço de há um ano. Em Washington, o Tesouro americano assina uma licença. Durante seis meses, o gasóleo russo pode ser comprado e vendido apesar das sanções. Incluindo a importação pelos próprios Estados Unidos.
As licenças anteriores, para petróleo russo já carregado, duravam um mês. Esta dura seis. Não precisou da nova lei de sanções. Bastou a mão que a vai aplicar.
Washington ameaça punir quem compra petróleo e gás à Rússia. E autoriza-se a si próprio a comprar-lhe gasóleo.
O risco para a Europa não é o gasóleo. É depender, para a energia, de quem joga e apita ao mesmo tempo.
Este ano, segundo uma previsão do IEEFA, um instituto americano de análise energética, os Estados Unidos deverão ultrapassar a Noruega como maior fornecedor de gás da Europa. E ainda não disseram se, para a sua nova lei de sanções, a União Europeia conta como um país ou como vinte e sete. Do outro lado dessa resposta estão 554 mil milhões de euros de exportações europeias para os Estados Unidos.
Destes, 4,6 mil milhões são portugueses.
A lei chama-se Lei Graham. Foi promulgada a 18 de setembro. Prevê tarifas de até 100% sobre tudo o que vendam aos Estados Unidos. Os alvos são os cinco maiores compradores de petróleo russo, os cinco maiores de gás russo e os cinco países que mais ajudam a contornar as sanções. No gás, a exceção exige duas condições: comprar menos de 15% do que a Rússia exporta e ter tomado medidas significativas para reduzir essas compras. No petróleo, não há esta exceção.
Quem pode ser apanhado? Assessores do Senado americano fizeram listas indicativas. No petróleo, além da China e da Índia, aparecem a Hungria e a Eslováquia, ambas servidas pelo oleoduto Druzhba. No gás, a França, a Bélgica e, outra vez, a Hungria. O perigo mais provável está no petróleo, porque aí não existe essa exceção. Uma tarifa sobre Budapeste ou Bratislava cairia sobre a Audi em Győr e sobre a Volkswagen na capital eslovaca. Mas a Hungria já sabe como se sai destas listas. Em novembro de 2025, Viktor Orbán foi à Casa Branca e voltou com um ano de isenção das sanções americanas à energia russa. Não era esta lei. Mas a ameaça desfez-se numa visita. Esse ano acaba em novembro.
O risco extremo está escondido numa palavra. A lei não define o que é um país. A sociedade de advogados Squire Patton Boggs assinala que fica por saber se a União pode ser tratada como um só.
A diferença é enorme. Fiz as contas com dados públicos de 2025, o ano completo mais próximo dos doze meses que a lei mede. Dos três países europeus da lista indicativa do gás, nenhum, pelas minhas estimativas, se aproxima dos 15% do que a Rússia exporta. Pelas minhas estimativas, a França, maior compradora europeia de gás liquefeito russo, anda pelos 6%. A Bélgica, pelos 4%. A Hungria tinha recebido pelo gasoduto cerca de 7,5 mil milhões de metros cúbicos até ao início de dezembro, segundo o próprio Orbán. Extrapolando o ritmo de fornecimento para o resto do ano, a quota ficaria entre 5% e 6%.
No conjunto dos vinte e sete, a conta muda. Segundo o Conselho da União Europeia, a União importou 36 mil milhões de metros cúbicos de gás russo em 2025. É perto de um quarto de tudo o que a Rússia exportou.
Sozinhos, nenhum dos três chega a metade da linha. Como bloco, a União passa-a com folga.
Ficar abaixo da linha também não chega. A exceção só protege quem estiver a reduzir, e a lei não define o que conta. A União tem o melhor argumento possível: um regulamento já pôs fim aos contratos de curto prazo, em abril para o gás liquefeito e em junho para o gasoduto. E proíbe os de longo prazo a partir de 2027. Mas quem o avalia está do outro lado do Atlântico. E os números não ajudam. No primeiro trimestre de 2026, segundo o IEEFA, as importações de gás liquefeito russo pela União chegaram ao nível mais alto desde 2022. Esse gás entra sobretudo por portos franceses, belgas e espanhóis, nota a Squire Patton Boggs. A França e a Bélgica, que constam da lista do gás, podem ter de provar que estão a reduzir, quando os números da União apontam no sentido contrário. Mesmo país a país, não estão a salvo.
A mesma lei dá ao árbitro três decisões. O que é um país. O que é reduzir. E quanto cobrar, até 100%.
Há bons argumentos contra a leitura mais dura. O serviço de investigação do próprio Congresso lembra que, no sentido comum, a União pode não ser um país. Admite até que só contem as compras feitas por governos. Ora, na Europa, quem compra gás são sobretudo empresas privadas, e quase ninguém seria apanhado. A exceção seria a Hungria, onde quem compra o gás russo é a MVM, empresa do Estado. E a lei só deixa tarifar os países que cabem nas suas listas, de cinco lugares cada. O mesmo serviço duvida que uma união de vinte e sete caiba num desses lugares.
Mas são leituras, não garantias. E quem escolhe entre elas é quem aplica a lei: o Presidente e o seu representante para o comércio. De seis em seis meses, voltam a apurar quem são os cinco maiores compradores. E Washington não tem uma forma fixa de olhar para a Europa. Em 2019, no caso Airbus, agiu contra a União, mas escolheu os alvos país a país. Em 2025, negociou com Bruxelas, como bloco, uma tarifa máxima de 15%. No mesmo acordo ficou a intenção europeia de comprar mais de 600 mil milhões de euros de energia americana. A tarifa e o gás sentaram-se à mesma mesa. Washington escolhe a forma que lhe convém, e quem poupa. A Europa fica a saber depois.
Dir-se-á que Washington nunca tarifaria o seu maior cliente de gás. Provavelmente não tarifará. Mas o poder do árbitro não está em apitar. Está em poder apitar. E esse poder não depende da leitura mais dura. Mesmo que a União nunca conte como um país, quem pode punir e dispensar à porta do seu mercado senta-se mais forte à mesa. O acordo de 2025 já o mostrou. Uma análise do centro de estudos CSIS, de 5 de outubro, conclui que o valor desta lei pode estar menos nas tarifas do que na incerteza sobre quando, como e contra quem serão usadas. Uma ameaça que nunca se cumpre continua a cobrar em cada negociação. A dúvida trabalha a favor de quem a mantém.
E a lei deixa essa incerteza numa só mão. O Tesouro continua a dar licenças sem passar pelo Congresso. O Presidente pode dispensar qualquer sanção ou tarifa. Basta-lhe declarar ao Congresso que é do interesse nacional. A licença do gasóleo mostra como isto se faz. Veio depois de um telefonema entre Donald Trump e Vladimir Putin, a poucas semanas das eleições intercalares, com o gasóleo nos Estados Unidos perto de máximos. Volodymyr Zelensky chamou-lhe «uma decisão fraca de parceiros fortes».
Bruxelas também abre exceções. O Druzhba ficou fora do embargo ao petróleo, por exigência húngara, e a Comissão pode suspender o calendário de saída numa emergência de abastecimento. A diferença não está na transparência; as licenças americanas também são públicas. Está em quem decide. Na União, as exceções têm prazos e estão escritas em regras aprovadas pelos governos e pelo Parlamento. Em Washington, basta uma licença do Tesouro ou uma dispensa do Presidente.
Portugal está nesta conta duas vezes. Primeiro, como comprador. Em 2025, segundo a reguladora ERSE, 95% do gás que entrou no país chegou de navio, por Sines. Em metade das descargas, o gás veio da Nigéria; em 43%, dos Estados Unidos. Três navios trouxeram gás russo. A única empresa com contrato de longo prazo para gás russo por Sines, segundo o Governo, é a espanhola Naturgy. São compras legais, com data para acabar. Mas, se Washington olhar para a União como um só país, Portugal fica exposto pelo total europeu, não pelos seus três navios.
Depois, como exportador. Os 4,6 mil milhões de euros que Portugal vendeu aos Estados Unidos em 2025, segundo o INE, ficariam expostos a tarifas por compras que não controla. Hoje, a maioria desses bens paga até 15 euros de direitos por cada 100 euros de valor, o teto do acordo de 2025. Com a tarifa máxima, pagaria até 115. E essa tarifa cairia sobre empresas que já pagam caro a energia. Em setembro, segundo o Jornal Económico, a associação da cerâmica fez uma simulação: numa fábrica que gaste 40 gigawatts-hora de gás por ano, a subida de 32 para 80 euros por megawatt-hora leva a fatura de 1,3 para 3,2 milhões de euros. Quase dois milhões a mais, antes de vender uma peça. Primeiro paga caro para produzir. Depois pagaria caro para vender.
É aqui que o árbitro e o fornecedor passam a ser um só. Sair depressa do gás russo protege a Europa da Lei Graham. Mas empurra-a para o gás de quem aplica essa lei, num mercado apertado. Com Ormuz ainda a recuperar da guerra entre os Estados Unidos e o Irão, a Ásia disputa à Europa os navios do Atlântico.
Há uma objeção económica: a dependência é recíproca. Os produtores americanos precisam dos compradores europeus. Em 2025, a União recebeu mais de metade das exportações americanas de gás liquefeito. Essa dependência recíproca dá poder à Europa. Mas não impede decisões políticas contrárias aos interesses dos produtores, porque quem decide em Washington não é quem vende. E a procura asiática dá aos vendedores outras saídas. Os vendedores são empresas privadas, e são muitas. Mas contratar dez empresas do mesmo país não protege do risco político que pode atingir as dez. Em 2024, Washington suspendeu durante quase um ano a decisão sobre pedidos pendentes de autorização para exportar gás liquefeito para países sem acordo de comércio livre com os Estados Unidos, incluindo os Estados-membros da União. É possível diversificar as faturas sem diversificar o risco.
A partir de 18 de outubro, as novas compras de petróleo e gás russos passam a poder ser punidas. Se Washington tratar por igual a China, a Índia e a Hungria, a lei será uma regra. Se punir uns e poupar outros, será um instrumento de favores. E, mais tarde ou mais cedo, terá de dizer se a União conta como um país ou como vinte e sete.
A Europa pode fazer três coisas.
Primeiro, deve exigir uma leitura escrita da lei: se a União conta como um país e que medidas de redução dão acesso à exceção. A resposta não impede uma mudança futura, mas obriga Washington a assumir uma posição pública. Essa clarificação deve preceder qualquer nova concessão europeia no acordo comercial de 2025, incluindo compromissos de compra de energia. A Europa não deve conceder mais em troca de uma segurança que continua por definir.
Segundo, deve fixar as condições em que ponderaria usar o instrumento anticoerção se Washington recorresse às tarifas para lhe impor decisões energéticas. A União dispõe dele desde 2023. Nunca o usou, nem no confronto tarifário de 2025 nem na crise da Gronelândia, apesar de vários governos o terem invocado. Tornar essas condições públicas daria conteúdo à ameaça e aumentaria o custo político de recuar. Um instrumento que só se invoca em voz baixa dissuade pouco.
Terceiro, deve reduzir a concentração nos contratos que assina agora. Para as matérias-primas estratégicas, a União já fixou uma referência de 65% por país terceiro. No gás liquefeito, os Estados Unidos caminham para dois terços das importações europeias. Proponho uma referência de 50% por origem no conjunto dos novos contratos de longo prazo da União, medida pelo volume anual e pelo país de produção. Metade é uma escolha prudencial: evita entregar a um único país a maioria dos novos volumes. Não elimina a dependência existente. Evita prolongá-la nas mesmas condições. O objetivo é chegar ao próximo contrato com alternativas.
A dificuldade está nas alternativas. Até 2030, a maior parte do novo gás liquefeito virá dos Estados Unidos e do Catar. A referência deve, por isso, admitir exceções temporárias, fundamentadas e públicas quando faltar uma alternativa segura ou o custo for desproporcionado. O gás americano já contratado continua a chegar. Para os novos contratos, cumprir a referência e a intenção de compra de 2025 exigiria mais fornecimento de outras origens, como a Nigéria, novos projetos africanos e o Catar, quando Ormuz voltar a ser seguro. Diversificar pode custar mais. A pergunta é se custará mais do que ficar sem alternativa.
Desde 2022, a Europa trabalha para deixar de depender de quem fazia do gás uma arma. Agora arrisca depender de quem decide quando as regras se aplicam. Não controla o apito. Controla a sua exposição. A autonomia europeia mede-se pelo custo de dizer não.
As fontes seguem a ordem do ensaio. Os cálculos do autor estão identificados como tal e podem ser reproduzidos a partir dos dados indicados.
1. Preço do gás a 9 de outubro de 2026. TTF holandês, referência do gás europeu, perto de 80 euros por megawatt-hora (Trading Economics, valor de instrumento financeiro, não fecho oficial de bolsa; outras fontes registam cerca de 78 no mesmo dia), cerca de duas vezes e meia o valor de outubro de 2025, perto de 32 euros por megawatt-hora.
2. Licença do gasóleo russo. Departamento do Tesouro dos EUA, OFAC, General License 135, de 9 de outubro de 2026, válida até 7 de abril de 2027, que inclui expressamente a importação para os Estados Unidos; emitida ao abrigo das sanções já existentes, não da Lei Graham. Licenças anteriores, para crude e produtos petrolíferos russos já carregados em navios: General License 134 a 134C, entre 12 de março e 17 de junho de 2026, por períodos de 30 dias. Contexto: anúncio de Donald Trump na Truth Social, a 9 de outubro, depois de um telefonema com Vladimir Putin; preço médio do gasóleo nos EUA em máximo a 22 de setembro e ainda perto dele a 9 de outubro (AAA). Reação de Volodymyr Zelensky, divulgada pela Embaixada da Ucrânia em Washington e citada pela AP: «a weak decision, unfortunately, a weak decision by strong partners» (uma decisão fraca, infelizmente, uma decisão fraca de parceiros fortes). Embargo da União ao gasóleo russo em vigor desde 5 de fevereiro de 2023.
3. Gás americano como maior fornecedor da Europa e da União em 2026, à frente da Noruega (previsão). IEEFA, «Europe to source two-thirds of its LNG imports from US in 2026 as dependence deepens», 13 de maio de 2026. Na mesma fonte: dois terços do gás liquefeito importado pela Europa em 2026 virão dos EUA (previsão); importações de gás liquefeito russo pela União no primeiro trimestre de 2026 no nível mais alto desde 2022 (6,9 mil milhões de metros cúbicos, mais 16% em termos homólogos).
4. Comércio com os Estados Unidos em 2025. Exportações de bens da União, 554 mil milhões de euros (Eurostat, 26 de fevereiro de 2026). Exportações portuguesas de bens para os EUA, 4601 milhões de euros, cerca de 6% das exportações portuguesas de bens (INE).
5. Lei Graham. Lindsey O. Graham Sanctioning Russia and Iran Act of 2026 (H.R. 5334), promulgada a 18 de setembro de 2026; texto em GovInfo. Artigo 113.º: direitos de até 100% sobre todos os bens de países descritos na alínea c), que abrange três grupos de cinco: os maiores importadores de crude russo, os maiores importadores de gás natural russo e os países que mais facilitam a evasão às sanções ao petróleo russo, com base nos 12 meses anteriores à promulgação; alínea d), exceção apenas para o gás, para países abaixo de 15% das exportações russas de gás que tenham tomado «significant steps» (medidas significativas) de redução, expressão que a lei não define; alínea e), novo apuramento de 180 em 180 dias; alínea h), proibição de tarifar países não descritos expressamente na alínea c). A lei não define «país» nem fixa taxa mínima. Artigo 114.º: salvaguarda das licenças gerais anteriores; a lei não limita o poder do Tesouro de emitir novas. Artigo 115.º: dispensa presidencial mediante certificação de interesse nacional e relatório ao Congresso. Início da contagem das novas compras: 18 de outubro de 2026 (Squire Patton Boggs). Análises consultadas: Akin Gump, Covington, Davis Polk, Squire Patton Boggs.
6. Listas indicativas atribuídas a assessores do Senado. Crude: China, Índia, Eslováquia, Hungria, Azerbaijão. Gás: China, França, Japão, Hungria, Bélgica. Fonte: Squire Patton Boggs, «Sanctions by statute: The Graham Act and tariffs on Russia's energy buyers», 2026, que assinala também que «questions remain over whether the EU may be treated as a single country» (fica por saber se a União pode ser tratada como um só país).
7. Isenção da Hungria. A 7 de novembro de 2025, depois de um encontro entre Viktor Orbán e Donald Trump na Casa Branca, os EUA isentaram a Hungria, por um ano, das sanções americanas ao petróleo e ao gás russos (Casa Branca; Reuters; Al Jazeera). O Governo húngaro apresentou-a como indefinida; a Casa Branca fixou um ano. Não decorre da Lei Graham.
8. Cálculo do autor: peso dos países analisados e da União no gás exportado pela Rússia em 2025. Denominador. As exportações russas de gás foram estimadas em 142 mil milhões de metros cúbicos em 2023, das quais cerca de 28 para a antiga União Soviética (Center on Global Energy Policy, Universidade de Columbia, fevereiro de 2024). Em 2025: mais 16 para a China (38,8 contra 22,7), menos cerca de 10 para a União por gasoduto, com o fim do trânsito pela Ucrânia, e gás liquefeito estável (31,3 milhões de toneladas, cerca de 43 mil milhões de metros cúbicos, Reuters/LSEG, 5 de março de 2026). Resultado: entre 140 e 150 mil milhões de metros cúbicos, estimativa do autor. Conversão: 1 milhão de toneladas de gás liquefeito, cerca de 1,36 mil milhões de metros cúbicos. França: 6,3 milhões de toneladas de gás liquefeito de Yamal (Urgewald, com dados da Kpler, 8 de janeiro de 2026), cerca de 8,6 mil milhões de metros cúbicos, cerca de 6%. Yamal é a origem de quase todo o gás liquefeito russo que chega à Europa, e a França não recebe gás russo por gasoduto. Bélgica: 4,2 milhões de toneladas de Yamal descarregadas em Zeebrugge, cerca de 5,7 mil milhões de metros cúbicos, cerca de 4%. Espanha: 2,8 milhões de toneladas de Yamal, cerca de 3,8 mil milhões de metros cúbicos, cerca de 3% (a Enagás regista 42 629 gigawatts-hora de gás de origem russa em 2025, ordem de grandeza coerente). Hungria: cerca de 7,5 mil milhões de metros cúbicos recebidos pelo TurkStream até ao início de dezembro de 2025, segundo Viktor Orbán (Interfax e Turkish Minute, 9 de dezembro de 2025); extrapolação do autor, não total anual observado: 7,5 × 12 ÷ 11 = 8,18 mil milhões de metros cúbicos, cerca de 5,5% a 5,8%. União: 36 mil milhões de metros cúbicos importados da Rússia em 2025, por gasoduto e por navio (Conselho da União Europeia, com dados da Comissão), entre 24% e 26%. Escala da comparação: 15% do denominador estimado equivale a 21 a 22,5 mil milhões de metros cúbicos. Os 36 mil milhões atribuídos à União ultrapassam esse limiar; as estimativas para França, Bélgica e Hungria ficam abaixo dele. Esta comparação não prova, por si só, a quota de cada um dos 27 Estados-membros. Limites: os valores por país são estimativas, a partir de fontes com métodos diferentes (descargas de gás liquefeito, fluxos de gasoduto, totais oficiais), e não um apuramento exaustivo dos 27 Estados-membros. A lei mede os 12 meses anteriores à promulgação; o cálculo usa o ano civil de 2025 como aproximação e não apura a quota do período legal.
9. Saída europeia do gás russo. Regulamento adotado pelo Conselho a 26 de janeiro de 2026, com os votos contra da Hungria e da Eslováquia: contratos de curto prazo de gás liquefeito até 25 de abril de 2026 e de gasoduto até 17 de junho de 2026; contratos de longo prazo de gás liquefeito até 1 de janeiro de 2027 e de gasoduto até 30 de setembro ou 1 de novembro de 2027; suspensão temporária pela Comissão em caso de emergência de abastecimento. Entrada do gás liquefeito russo na União sobretudo por portos franceses, belgas e espanhóis (Squire Patton Boggs).
10. Leitura do Congressional Research Service. «Tariff Authorities in the Lindsey O. Graham Sanctioning Russia and Iran Act of 2026», Legal Sidebar LSB11474, 3 de setembro de 2026, sobre o texto aprovado pelo Senado. Inclui: o sentido comum de «país» como argumento contra tarifar a União como um todo; a dúvida de que uma união política com mais membros do que os lugares de cada lista possa ser tarifada como um só país; a leitura restrita de «knowingly made new purchases» (fez conscientemente novas compras) como compras feitas por governos; a aplicação pelo Presidente e pelo representante dos EUA para o comércio. Na Hungria, a principal compradora de gás russo é a MVM, empresa pública, com contrato de 15 anos com a Gazprom assinado em 2021.
11. Precedentes. Caso Airbus: processo da secção 301 contra a União, com tarifas de outubro de 2019 sobre produtos escolhidos sobretudo de França, Alemanha, Espanha e Reino Unido. Acordo UE-EUA de 2025: acordo político de 27 de julho e declaração conjunta de 21 de agosto de 2025, com teto de 15% para a generalidade dos bens e intenção, não vinculativa, de compra de energia americana no valor de cerca de 640 mil milhões de euros até 2028 (750 mil milhões na moeda americana).
12. Incerteza como valor da lei. CSIS, «The New Sanctioning Russia Act: Optics for Now, Leverage for Later», 5 de outubro de 2026: «The value of the law may therefore lie less in the tariffs themselves than in the uncertainty» (o valor da lei pode estar menos nas tarifas do que na incerteza).
13. Exceções europeias. Isenção do oleoduto Druzhba no embargo ao petróleo russo de 2022, por exigência húngara; suspensão do calendário de saída do gás russo pela Comissão em caso de emergência (ver ponto 9).
14. Portugal. ERSE, dados de 2025 divulgados a 11 de setembro de 2026: 95% das entradas de gás pelo terminal de Sines; operações de descarga, não volumes, por origem: Nigéria 50%, Estados Unidos 43%, Rússia 7%, correspondentes a três navios. Naturgy como única empresa com contrato de longo prazo para gás russo por Sines: declarações da ministra do Ambiente e Energia, fevereiro de 2026. Direitos aduaneiros atuais sobre bens da União: até 15%, teto do acordo de 2025. Efeito de uma tarifa de até 100% sobre o valor aduaneiro, somada aos 15%: até 115 euros de direitos por cada 100 euros de valor, contra até 15 hoje.
15. Simulação da cerâmica. Jornal Económico, 17 de setembro de 2026, com declarações de Paulo Almeida, da APICER: cálculo do setor para uma fábrica-tipo que consuma 40 gigawatts-hora de gás por ano, não a fatura de uma empresa identificada. Conta: 40 000 megawatts-hora a 32 euros, 1,28 milhões de euros; a 80 euros, 3,2 milhões de euros; diferença de 1,92 milhões de euros. Fonte consultada em 12 de outubro de 2026: Jornal Económico, 17 de setembro de 2026.
16. Gás americano, mercado e risco político. A União recebeu 54,3% das exportações americanas de gás liquefeito em 2025 (Banchero Costa, citada pela Hellenic Shipping News). Ormuz: cerca de um quinto do comércio mundial de gás liquefeito passava pelo estreito, quase 90% dele para a Ásia (Agência Internacional de Energia); ataques iranianos ao complexo de Ras Laffan em março de 2026 (QatarEnergy); cessar-fogo entre os EUA e o Irão desde abril de 2026. Pausa americana nas decisões sobre pedidos pendentes de autorização para exportar gás liquefeito para países sem acordo de comércio livre: Departamento de Energia dos EUA, de 26 de janeiro de 2024 a 20 de janeiro de 2025. Oferta nova de gás liquefeito até 2030 concentrada nos EUA e no Catar (Agência Internacional de Energia).
17. Propostas. Instrumento anticoerção: Regulamento (UE) 2023/2675, em vigor desde 27 de dezembro de 2023; nunca acionado até à data, apesar de invocado por vários governos em 2025 e na crise da Gronelândia, em janeiro de 2026; o recurso exige a determinação de que um país terceiro procura condicionar uma decisão da União ou de um Estado-membro. Referência não vinculativa de 65% por país terceiro para cada matéria-prima estratégica até 2030: Regulamento (UE) 2024/1252, artigo 5.º. Informação sobre grandes contratos de gás transmitida à Comissão: Regulamento (UE) 2017/1938, artigo 14.º. Referência de 50% para o gás liquefeito: proposta do autor, como escolha prudencial; medida em volume anual contratado, por país de produção, nos novos contratos de longo prazo da União; com exceções temporárias, fundamentadas e públicas.
Miguel Sousa Soares é economista e analista de geoeconomia e inteligência artificial, com mais de vinte anos de experiência em estratégia e corporate finance. Escreve na Visão, no Expresso, no Jornal de Notícias e no Correio da Manhã e comenta inteligência artificial na NOW, às sextas-feiras.