Miguel Sousa Soares
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LinkedIn · Ensaio · 12 de março de 2026

O Caso Nexperia: O Dia em Que a Europa Acordou Para a Guerra Económica

Uma empresa europeia de semicondutores dividiu-se em duas por uma disputa entre a Holanda e a China. O que aconteceu, porque é que interessa, e o que significa para todas as empresas europeias que dependem de operações na China.

Na noite de 3 de março de 2026, a sede holandesa da Nexperia desligou as contas de email, Office 365 e SAP de todos os seus funcionários na China. De um dia para o outro, milhares de trabalhadores ficaram sem acesso aos sistemas internos da própria empresa onde trabalhavam.

Seis dias depois, a subsidiária chinesa respondeu: anunciou que já consegue fabricar chips sozinha, usando tecnologia que a casa-mãe europeia não domina. Declarou-se, na prática, independente.

Hoje existem duas Nexperias. Uma europeia e uma chinesa. Uma empresa partiu-se ao meio por causa da geopolítica. E esta não é uma história sobre chips. É uma história sobre o que pode acontecer a qualquer empresa europeia que dependa da China.

Mas afinal, o que faz a Nexperia?

A Nexperia fabrica componentes eletrónicos básicos - os pequenos chips que fazem funcionar praticamente tudo o que tem um botão para ligar: automóveis, telemóveis, computadores, equipamento médico, eletrodomésticos. Não são os chips sofisticados que alimentam a inteligência artificial. São os chips simples sem os quais nada arranca.

A empresa controla cerca de 40% do mercado mundial destes componentes. Se a Nexperia parar, não param os chatbots - param os carros. Param as linhas de montagem. Param os hospitais.

A Nexperia nasceu na Holanda, como parte da Philips - um dos nomes mais emblemáticos da indústria europeia. Foi posteriormente separada e integrada na NXP Semiconductors. Em 2019, foi adquirida pela Wingtech, um grupo chinês de eletrónica cotado na bolsa de Xangai. A sede manteve-se em Nijmegen, na Holanda. Os donos passaram a estar em Xangai.

E aqui começa o problema: esta venda aconteceu sem qualquer escrutínio de segurança nacional. Em 2019, a Holanda simplesmente não tinha um mecanismo formal de revisão de investimento estrangeiro em sectores estratégicos. A transação escapou a qualquer análise prévia. Uma empresa que controla 40% do mercado mundial de componentes essenciais foi vendida a um grupo chinês sem que ninguém perguntasse: "e se um dia a geopolítica mudar?"

A geopolítica mudou.

A escalada: de parceiros a adversários

Em dezembro de 2024, os Estados Unidos colocaram a Wingtech na sua lista de entidades restritas, por razões de segurança nacional. Isto significava que a Nexperia - como subsidiária da Wingtech - ficaria sujeita a restrições de exportação americanas, pondo em risco a sua capacidade de vender chips aos seus maiores clientes europeus, incluindo a BMW, a Volkswagen e a Stellantis.

O governo holandês viu-se confrontado com um cenário impensável: uma empresa sediada no seu território, que abastece a indústria europeia, podia ficar paralisada por causa de uma decisão americana sobre a sua dona chinesa. As autoridades identificaram ainda falhas graves de gestão - o CEO chinês tinha afastado o diretor financeiro, havia um número crescente de transações com filiais chinesas, e não existia qualquer plano de contingência para o novo quadro de sanções.

A 30 de setembro de 2025, o governo holandês tomou uma decisão sem precedentes: invocou uma lei de emergência de 1952 - a Lei de Disponibilidade de Bens - para assumir o controlo operacional da Nexperia. O CEO chinês foi suspenso. Os direitos de voto da Wingtech foram transferidos para um administrador independente. Uma empresa privada foi, na prática, nacionalizada por um governo europeu.

A resposta de Pequim foi imediata. A 4 de outubro, a China proibiu as exportações de chips Nexperia fabricados em território chinês. Num golpe, cortou o abastecimento de componentes a metade da indústria automóvel mundial. A Honda suspendeu a produção em fábricas na China e no Japão. A Nissan cortou produção em várias unidades. A associação da indústria automóvel alemã alertou para riscos elevados de abastecimento no primeiro trimestre de 2026.

Seguiram-se meses de negociações diplomáticas entre Haia, Pequim e Bruxelas. A China levantou parcialmente as restrições. A Holanda suspendeu temporariamente a sua tutela. Mas o divórcio dentro da empresa já era irreversível. A subsidiária chinesa declarou-se independente da gestão europeia e, em março de 2026, anunciou que já produz os seus próprios chips usando wafers de 12 polegadas - uma tecnologia que a Nexperia europeia não tem. O desacoplamento tecnológico deixou de ser uma ameaça abstracta. Está a acontecer dentro de uma única empresa.

Quantas Nexperias existem na Europa?

O caso Nexperia não é um incidente isolado. É um sintoma de uma dependência estrutural que a Europa (e Estados Unidos) escolheu ignorar durante duas décadas.

Segundo dados de inquéritos recentes do Eurossistema a empresas industriais de três das maiores economias europeias, mais de um terço das empresas industriais alemãs depende de inputs críticos vindos da China. Em Espanha, o número é de 20%. Em Itália, 17%. E 75% das empresas industriais alemãs afirmam que uma escalada de tensões com a China teria um impacto negativo na sua atividade - mesmo as que não tenham relação direta com o mercado chinês, por causa do efeito cascata nas cadeias de abastecimento.

As empresas europeias com maior exposição à China geraram coletivamente quase 150 biliões de euros (a CBP utiliza a escala anglo-saxónica) em receitas no mercado chinês só em 2024. São empresas de automóveis, maquinaria industrial, eletrónica, produtos químicos e equipamento médico. São nomes que toda a gente conhece: BMW, Mercedes-Benz, Volkswagen, BASF, Siemens, ASML.

A dependência não é apenas comercial. A Europa importa da China 98% das terras raras de que necessita - os minerais essenciais para fabricar baterias, turbinas eólicas, equipamento militar e eletrónica. Em abril de 2025, a China restringiu as exportações destes materiais, afetando diretamente os sectores de defesa e automóvel europeus.

A pergunta que qualquer administrador de uma empresa europeia com operações ou fornecedores na China deve fazer hoje é simples: se amanhã um governo - chinês, americano - decidir intervir na minha cadeia de valor, o que acontece à minha produção? Se a resposta for "não sei" ou "não temos plano", então a sua empresa está exactamente na posição em que a Nexperia estava em 2024.

A Europa está preparada? Não.

A venda da Nexperia à Wingtech em 2019 escapou a qualquer escrutínio porque não existia enquadramento legal para o fazer. Sete anos depois, o quadro europeu melhorou - mas continua insuficiente.

O novo regulamento europeu de escrutínio de investimento estrangeiro direto deverá entrar em vigor no verão de 2026 (demasiado tarde), com um período de implementação de até 18 meses. Até lá, persistem lacunas sérias. As decisões finais sobre investimento estrangeiro continuam a ser nacionais - a Comissão Europeia pode emitir pareceres, mas não tem poder de veto, algo absolutamente incompreensível. A China pode continuar a canalizar investimento através de países com regras mais fracas ou incompletas. E o investimento greenfield - quando uma empresa chinesa constrói uma fábrica nova na Europa, em vez de comprar uma existente - continua praticamente fora do radar regulatório.

O caso Nexperia expõe uma contradição fundamental: a Europa quer manter-se aberta ao investimento estrangeiro, mas não tem as ferramentas para distinguir entre investimento que fortalece a economia europeia e investimento que cria dependências estratégicas. Enquanto esta ambiguidade persistir, estamos a jogar um jogo sobre o qual só descobrimos as regras quando perdemos.

Re-shoring: já não é uma opção, é uma urgência

O caso Nexperia pode ser o ponto de viragem que obriga a Europa a fazer o que devia ter feito há uma década: trazer de volta para território europeu a produção de componentes estratégicos. Não por protecionismo, mas sim por sobrevivência.

A própria Nexperia europeia já anunciou um investimento de 275 milhões de euros para expandir capacidade de produção fora da China, com o objectivo de atingir 90% de produção não-chinesa até meados de 2026. As fábricas estão a ser expandidas na Malásia e nas Filipinas. A Europa está, lentamente, a acordar para a necessidade de diversificar.

Mas diversificar não é o mesmo que proteger. A verdadeira questão é mais profunda: a Europa precisa de decidir, de uma vez por todas, quais são os sectores e as tecnologias que considera soberanos - e tratá-los como tal. Semicondutores, terras raras, baterias, telecomunicações, infraestrutura digital. Estes não são sectores onde o mercado livre, sozinho, garante a segurança europeia. São sectores onde a inação política (reiterada) tem consequências industriais, económicas e, em última instância, de segurança nacional.

Na noite de 3 de março, alguém na sede da Nexperia em Nijmegen clicou num botão e desligou o acesso de milhares de funcionários chineses aos sistemas da empresa. Seis dias depois, a subsidiária chinesa anunciou que já não precisa da casa-mãe.

Isto não é um problema holandês. Não é um problema de semicondutores. É um problema europeu. E a pergunta que devia tirar o sono a qualquer decisor - político ou empresarial - é esta: quantas empresas europeias estão hoje na mesma posição em que a Nexperia estava antes de se partir ao meio?

A resposta, provavelmente, é: mais do que gostaríamos de admitir.

Nota metodológica

Os factos sobre o caso Nexperia baseiam-se em reportagens da Reuters, Tom's Hardware, CNBC e comunicados oficiais da Nexperia e do Ministério dos Assuntos Económicos dos Países Baixos. Os dados sobre dependência europeia da China provêm de inquéritos do Eurossistema (Banco de Itália, Bundesbank e Banco de Espanha) a cerca de 14.000 empresas, e de análises do Atlantic Council e do Centre for European Reform. Os dados sobre terras raras provêm de relatórios da Comissão Europeia e de análises sectoriais especializadas. O novo regulamento europeu de escrutínio de investimento estrangeiro é referido com base em análises do Centre for European Reform (março de 2026).

Ensaio de Miguel Sousa Soares, publicado originalmente no LinkedIn a 12 de março de 2026. Esta página é o arquivo pessoal do autor.