Miguel Sousa Soares
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LinkedIn · Ensaio · 26 de março de 2026

A Europa Tem a Máquina. Falta-lhe o Poder

Porque é que o continente que controla o gargalo mais crítico da cadeia global de semicondutores continua refém de quem os liga?

Em Veldhoven, no sul dos Países Baixos, existe um edifício sem rótulo visível onde se produz a máquina mais crítica da economia digital contemporânea. Pesa cerca de 180 toneladas e é transportada em dezenas de contentores. A sua função é aparentemente simples: gravar circuitos à escala atómica na superfície de uma wafer (bolacha) de silício, o processo que transforma areia purificada num chip. Chama-se litografia por ultravioleta extremo, e só uma empresa no mundo a domina: a ASML. Sem ela, não há produção de semicondutores de fronteira em escala industrial. Nem em Taiwan, nem na Coreia do Sul, nem nos Estados Unidos.

A Europa controla este gargalo. E, no entanto, continua longe do centro do poder que ele ajuda a criar.

Esta é a contradição estratégica europeia em 2026. O continente detém um activo industrial indispensável, mas não controla as camadas onde hoje se concentra o valor e o poder: o design dos chips de IA, a computação de escala, os hiperescaladores de cloud (a AWS, a Azure e a Google Cloud são todos americanos) e a infraestrutura computacional soberana. Num mundo em que a inteligência artificial deixou de ser apenas software e passou a ser infraestrutura económica, militar e geopolítica, isto não é uma falha industrial marginal. É uma vulnerabilidade estrutural.

I. O Paradoxo Europeu

A Europa não é irrelevante em semicondutores. A ASML fechou 2025 com 32,7 mil milhões de euros de vendas, 38,8 mil milhões em carteira e 4,7 mil milhões em despesa de I&D (ASML, Resultados Q4 2025). Continua a ser a única empresa no mundo com capacidade de litografia EUV em escala comercial. A Infineon, a NXP e a STMicroelectronics dominam segmentos como potência e automóvel. O IMEC, em Leuven, é o centro de investigação em semicondutores mais avançado do mundo. O problema não é a ausência de competência. É a posição relativa dessa competência na nova hierarquia do poder tecnológico.

A cadeia que sustenta a inteligência artificial avançada está hoje organizada de outra forma. O design dos aceleradores mais críticos, nomeadamente processadores gráficos, memória de alta largura de banda e aceleradores de inferência, continua concentrado nos Estados Unidos. A produção de ponta mantém-se ancorada na Ásia. A cloud de escala global é dominada por fornecedores americanos. E a procura computacional mais agressiva está a ser absorvida por laboratórios e hiperescaladores que a Europa não controla. Quando Jensen Huang, fundador da NVIDIA, anunciou na conferência GTC 2026 que a procura acumulada pelas suas duas mais recentes arquitecturas atingiria um bilião de dólares até ao final de 2027, a procura de escala continuava dominada por actores não europeus. A Europa tem um instrumento indispensável, mas não comanda o sistema que esse instrumento torna possível.

A resposta remonta às decisões dos anos noventa. Quando os Estados Unidos e a Ásia apostaram na fabricação avançada, a Europa optou pela especialização em nichos como o automóvel, a potência e os sensores, e pelo outsourcing da produção de ponta. O resultado foi um ecossistema competente mas periférico: forte nos segmentos que o mercado passou a remunerar menos, e ausente dos que passou a disputar como arma geopolítica.

O European Chips Act, adoptado em 2023 com a ambição de mobilizar 43 mil milhões de euros e duplicar a quota europeia para 20% até 2030, não inverteu esta trajectória. O Tribunal de Contas Europeu, no Relatório Especial 12/2025, foi categórico: o objectivo é “muito improvável de ser alcançado.” A quota permanece entre 8% e 10%. O investimento mobilizado até ao final de 2025 ascende a cerca de 69 mil milhões de euros (SEMI Europe, Novembro 2025), mas destina-se esmagadoramente a nós tecnológicos maduros. Em Setembro de 2025, os 27 Estados-membros assinaram uma declaração conjunta pedindo um Chips Act 2.0 mais ambicioso. Quando todos pedem uma revisão estratégica tão cedo, isso já é, em si mesmo, um diagnóstico político.

II. O Tabuleiro Mudou Mais Depressa do Que a Política Europeia

A procura por computação para IA acelerou a uma velocidade que tornou obsoletas muitas das premissas do debate europeu. O mercado global de semicondutores atingiu 795,6 mil milhões de dólares em 2025, um crescimento de 26% num único ano, e a previsão da WSTS para 2026 aponta para 975 mil milhões, aproximando-se do bilião. O segmento de lógica cresceu 37% só em 2025. Isto não é um ciclo sectorial normal. É uma reconfiguração da hierarquia industrial do mundo digital.

Essa aceleração também se vê na infraestrutura. Na GTC 2026, a NVIDIA apresentou a plataforma Vera Rubin e afirmou que esta pode reduzir o custo de inferência por token em até uma ordem de grandeza face à geração anterior; na keynote, Jensen Huang quantificou a melhoria de capacidade de um grande centro de dados em 350 vezes face à tecnologia de há dois anos (NVIDIA Newsroom, 16 Março 2026). A Microsoft anunciou que a Azure está entre os primeiros hiperescaladores a preparar grandes implementações da Vera Rubin. Mais importante do que a métrica exacta é o significado estratégico: a fronteira competitiva já não é apenas fabricar chips. É integrar energia, refrigeração, networking, software e capital à escala certa, no tempo certo.

Em paralelo, a inteligência artificial tornou-se infraestrutura de poder estatal. A Anthropic, titular de um contrato de 200 milhões de dólares com o Pentágono para integrar o seu modelo em redes classificadas, recusou remover restrições sobre o uso em vigilância doméstica e armas autónomas. O Pentágono respondeu designando-a “risco para a cadeia de abastecimento”, pela primeira vez aplicando a uma empresa americana uma classificação até então reservada a entidades ligadas a adversários estrangeiros. A OpenAI fechou um acordo alternativo horas depois, descrevendo salvaguardas equivalentes assentes em mecanismos jurídicos diferentes (NPR, CNN, Fortune, Fevereiro–Março 2026). Do outro lado do Pacífico, a China não abrandou: a DeepSeek igualou o desempenho dos melhores modelos americanos a uma fracção do custo, e a Huawei expande a linha Ascend com a Bernstein Research a projectar uma quota de cerca de 50% do mercado chinês de aceleradores em 2026. Os controlos de exportação atrasaram a China, mas não a pararam.

A Europa está presente em partes críticas desta equação. Tem equipamento, investigação, engenharia. O que lhe falta é a capacidade de converter esses activos dispersos em soberania computacional efectiva. E essa distância entre excelência técnica e poder sistémico é o verdadeiro problema europeu.

III. O Erro Europeu Não É Tecnológico. É Estratégico.

A Europa não pode replicar a TSMC, não pode construir uma NVIDIA, e não pode competir com a China em escala coordenada pelo Estado. Construir estratégia sobre essa ilusão seria desperdiçar tempo e recursos. Mas há um caminho europeu plausível, desde que o continente aceite jogar de forma assimétrica.

A primeira alavanca é tratar a ASML não apenas como campeã industrial, mas como activo estratégico europeu. A ASML tem mais de 16 mil colaboradores em I&D e engenharia; nenhum país fabrica semicondutores abaixo dos 7 nanómetros sem as suas máquinas. Mas o enquadramento político desta vantagem continua fragmentado. Os controlos de exportação sobre equipamento de semicondutores para a China são negociados bilateralmente entre os Países Baixos, os Estados Unidos e o Japão, fora do quadro institucional da União Europeia. A razão é estrutural: a segurança nacional permanece competência exclusiva de cada Estado-membro. Isto significa que a política de exportação do activo tecnológico mais importante da Europa é definida em Haia e Washington, não em Bruxelas. Se a ASML é um instrumento de poder europeu, a política que a governa tem de ser europeia.

A segunda alavanca é aceitar que o futuro dos semicondutores não será decidido apenas pela corrida ao nó mais avançado. Será também decidido por integração de sistemas, empilhamento tridimensional, chiplets, packaging avançado e software de design. O IMEC lidera a investigação mundial nesta área; a iniciativa RESOLVE do CEA-Leti reúne centros europeus em 15 linhas tecnológicas. A Europa quase não tem empresas fabless, ou seja, empresas que concebem chips sem os fabricar. A Axelera AI, que assegurou 61,6 milhões de euros do programa EuroHPC DARE em 2025, é uma das poucas. Sem autonomia em design, incluindo no software de automatização hoje dominado por três empresas americanas, a soberania será sempre incompleta. O verdadeiro teste não é fabricar o chip mais rápido do mundo. É ocupar posições sem as quais ninguém consegue escalar com segurança e previsibilidade.

A terceira alavanca é a infraestrutura física. A soberania digital não depende apenas de software ou regulamentação. Depende de energia, localização, conectividade e jurisdição. O Gaia-X ficou aquém da ambição inicial, e os centros de dados europeus continuam a funcionar sobre plataformas americanas. O ponto jurídico é concreto: o CLOUD Act permite acesso a dados detidos por fornecedores sujeitos à jurisdição dos EUA, mesmo quando armazenados fora do território americano; a Section 702 do FISA opera noutro plano jurídico, ligado à recolha de informação sobre estrangeiros, mas a combinação entre localização física europeia e dependência de fornecedores extracomunitários mantém uma zona de exposição real. Em Junho de 2025, o director de assuntos jurídicos da Microsoft França declarou perante o Senado francês que não podia garantir que dados franceses não seriam apreendidos por autoridades americanas. A lição estratégica é simples: residência de dados não é o mesmo que soberania sobre dados.

A alternativa é uma rede federada de centros de dados europeus, alimentada por energia renovável e operando sob legislação exclusivamente comunitária. A infraestrutura física para isso já começa a existir: o campus da Start Campus em Sines, com 1,2 gigawatts de capacidade e energia 100% renovável, demonstra que é possível construir à escala na Europa. Aproximadamente 99% do tráfego intercontinental de dados viaja por fibra óptica submarina, e Sines é já ponto de amarração do EllaLink, do Equiano e do 2Africa, com quatro novos sistemas previstos até 2026. Portugal assegurou 71% do seu consumo de eletricidade a partir de fontes renováveis em 2024, segundo a REN, um dos desempenhos mais fortes da Europa e um ativo estratégico raro no atual mapa energético das economias avançadas, com horizonte regulatório no período 2026-2029. Os países nórdicos oferecem condições semelhantes. A Europa tem os activos físicos. Falta-lhe o enquadramento político para os converter em soberania.

Finalmente, nada disto funciona sem pessoas. A Europa forma engenheiros de excelência e perde-os. A TSMC e a Samsung recrutam activamente em universidades europeias. São necessárias bolsas vinculadas à permanência no continente, vistos acelerados para engenheiros de países terceiros e condições fiscais que justifiquem não atravessar o Atlântico. Se a Europa não compete em fábricas, tem de competir em cérebros. E para competir em cérebros, tem de oferecer um ecossistema onde a investigação se converte em empresas, não apenas em publicações.

IV. É Aqui Que Portugal Entra

A questão deixa de ser apenas o que a Europa perdeu. Passa a ser onde ainda pode ganhar. E é aqui que Portugal entra - um país sem indústria de semicondutores de ponta, mas com uma combinação rara de activos que, no contexto certo, pode ganhar importância estratégica europeia.

Sines é o primeiro desses activos. A Start Campus está a desenvolver um campus com 1,2 gigawatts de capacidade, energia 100% renovável, refrigeração por água do mar e certificação LEED Gold. O anúncio de um investimento de 10 mil milhões de dólares da Microsoft em infraestrutura de IA em Sines reforçou a credibilidade internacional do local. Numa Europa onde o maior constrangimento para novos centros de dados é, muitas vezes, energia e licenciamento, isto não é detalhe. É geografia estratégica.

O segundo activo é a conectividade. Portugal é um dos poucos países europeus ligados por cabo submarino à América do Sul, a África e à América do Norte por via directa, e à Ásia através de sistemas multilaterais que aterram no seu território. O cabo transatlântico Nuvem da Google, previsto para serviço em 2026, reforçará essa posição. Quem combina energia, solo, estabilidade regulatória e conectividade intercontinental tem condições para deixar de ser periferia e passar a ser plataforma.

O terceiro activo é a possibilidade de Portugal se posicionar como plataforma europeia de computação sob jurisdição comunitária. Num contexto em que residência de dados não equivale a soberania sobre dados, oferecer capacidade de processamento sob legislação europeia, alimentada por energia limpa e ligada por fibra a três continentes, é um posicionamento que poucos países conseguem igualar.

O quarto activo é a oportunidade de atrair investigação, não apenas investimento imobiliário. A Irlanda dos anos noventa não se tornou relevante por albergar fábricas. Tornou-se relevante por albergar decisões. Portugal pode seguir o mesmo caminho: transformar Sines de porto de contentores em porto de inteligência. O IST, a FCUL e a Universidade do Porto produzem engenheiros informáticos de qualidade reconhecida, mas a maioria emigra antes dos trinta anos. A diferença entre ser um armazém de dados e ser um pólo de inteligência está na capacidade de reter esse talento, gerar propriedade intelectual e criar empresas que desenhem tecnologia, não apenas que a alberguem.

Portugal já não pode ser descrito como país sem agenda nacional de IA. Em Janeiro de 2026, o Governo lançou a Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA), com mais de 400 milhões de euros até 2030. O problema, portanto, deixou de ser a inexistência de plano. O problema passa a ser outro: saber se essa agenda será executada com escala, continuidade e ambição suficientes para ligar talento, infraestrutura, investigação aplicada e investimento privado numa estratégia coerente. Entre ter agenda e ter posição há uma distância enorme. Um país pode acolher centros de dados e continuar periférico. Só deixa de o ser quando transforma infraestrutura em poder de negociação, talento em propriedade intelectual e localização em centralidade.

V. A Soberania Que Se Decide Agora

A Europa tem o hábito de produzir bons diagnósticos e respostas tardias. Nos semicondutores, esse risco é particularmente perigoso, porque o mundo não está à espera da próxima consulta pública europeia para investir, construir e escalar. Enquanto Bruxelas prepara o Chips Act 2.0, Jensen Huang já anunciou a arquitectura seguinte, a Feynman, prevista para 2028. Enquanto os 27 consultam, Pequim escala. Enquanto a Europa debate, os Estados Unidos militarizam.

A janela de oportunidade para construir soberania computacional europeia não é de uma década; é dos próximos três a cinco anos. Depois disso, as decisões de investimento já tomadas por outros determinarão quem controla a infraestrutura da inteligência artificial, e quem se limita a pagar pelo seu uso.

A Europa não parte do zero. Parte de um activo que mais ninguém tem. O que lhe falta não é capacidade tecnológica de base; é vontade política para converter vantagem industrial em soberania estratégica. A máquina já existe. O que continua ausente é a decisão de governar o mundo que ela ajuda a construir.

Nota metodológica

Este artigo baseia-se em fontes primárias e institucionais: ASML, resultados Q4 2025 (28 Janeiro 2026); WSTS, dados finais 2025 e Autumn 2025 Forecast; Tribunal de Contas Europeu, Relatório Especial 12/2025; SEMI Europe, Chips Act Report (Novembro 2025); NVIDIA Newsroom e keynote GTC 2026 (16 Março 2026); cobertura do caso Anthropic–Pentágono por NPR, CNN, Fortune e MIT Technology Review; Start Campus e Microsoft (Web Summit, Novembro 2025); Bernstein Research para projecções de quota Huawei; REN para consumo de electricidade renovável em Portugal; Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026 (ANIA). A quota europeia de semicondutores varia entre 8% e 10% consoante a métrica (produção vs. vendas). Dados de desempenho da plataforma Vera Rubin são projecções do fabricante, sujeitas a confirmação em produção.

Ensaio de Miguel Sousa Soares, publicado originalmente no LinkedIn a 26 de março de 2026. Esta página é o arquivo pessoal do autor.