A Alemanha é o Aviso Industrial da Europa
A maior empresa química do mundo acaba de decidir onde fica o seu futuro. Não é na Europa.
Na passada quinta-feira, a BASF inaugurou em Zhanjiang, no sul da China, o maior investimento da sua história: 8,7 mil milhões de euros, quatro quilómetros quadrados, 32 linhas de produção, energia 100% renovável. Não é apenas uma inauguração industrial. É uma mensagem estratégica. Enquanto Bruxelas multiplica discursos sobre competitividade e autonomia, uma das empresas mais emblemáticas da indústria alemã colocou fora do continente o projecto mais ambicioso do seu futuro.
Este gesto pesa mais pela empresa que o faz do que pelo montante que envolve. A BASF é um dos símbolos daquilo que a Alemanha construiu durante décadas: escala, densidade produtiva e capacidade exportadora. Quando uma empresa desta natureza escolhe investir desta forma fora da Europa, não está a diversificar risco, está a emitir um juízo sobre a atractividade do continente como espaço de produção.
No mesmo mês, o ifo Institute confirmava que os cortes de emprego na indústria alemã prosseguem, sem sinais de inversão real. Quando até a Alemanha perde densidade industrial, já não estamos perante uma dificuldade nacional. Estamos perante um aviso continental.
A Alemanha representa 23,7% do PIB da zona euro. A sua indústria transformadora gera 19,9% do valor acrescentado bruto nacional, bastante acima da média europeia. Mas o modelo está a perder fôlego. A economia cresceu apenas 0,2% em 2025, após dois anos de contração. A produção automóvel ficou em cerca de 4 milhões de veículos, longe dos 5,6 milhões de 2017. Na química, a utilização de capacidade ficou em 72,5% e a produção recuou 3,3%. Segundo o IW Cologne, 41% das empresas industriais planeiam reduzir pessoal em 2026. Não são números de abrandamento. São números de erosão.
A Europa trata cada um destes problemas como se fossem separados. Não são. O choque energético pós-Rússia deixou marcas profundas. A transição energética encerrou as centrais nucleares sem garantir alternativa competitiva. O que era apresentado como um caminho para a autonomia energética, no âmbito da Energiewende, acabou por aprofundar a dependência, primeiro do gás russo, depois do gás natural liquefeito americano. A pressão chinesa intensificou-se com um novo choque exportador. A procura externa enfraqueceu, o envelhecimento demográfico pesa e o subinvestimento em digitalização e escala deixou de poder ser disfarçado. A OCDE tem sido clara: fraca dinâmica empresarial, baixo crescimento da produtividade e investimento insuficiente, agravados por custos energéticos elevados e carga administrativa.
Mas o sinal mais perturbador está na geografia do investimento. Segundo o Rhodium Group, o investimento directo alemão representou 71% do total da UE na China em 2022, 62% em 2023 e 57% no primeiro semestre de 2024. O capital industrial europeu não desapareceu. Está a escolher crescer fora do continente. Há momentos em que os continentes se revelam não pelo que anunciam, mas pelo que já não conseguem reter.
Portugal não está à margem. A Autoeuropa produziu 240.400 veículos em 2025, representa 1,6% do PIB nacional e tem na Alemanha o seu principal mercado de destino. O sector automóvel português emprega 152.000 pessoas, representa 11% das exportações e integra mais de 220 fornecedores nas cadeias europeias. Portugal não depende de uma fábrica. Depende de um ecossistema industrial continental cuja principal âncora está mais vulnerável. Se a indústria automóvel alemã contrai, o efeito chega a Palmela antes de chegar a qualquer debate parlamentar em Lisboa.
O problema alemão deve ser lido como problema europeu. Uma Europa que perde base produtiva fragiliza a defesa, compromete a transição energética e reduz a autonomia tecnológica de que tanto fala. Não se fabricam baterias, semicondutores ou sistemas de defesa sobre um deserto industrial. A soberania europeia não se decreta. Exige base produtiva.
A inauguração de Zhanjiang não prova o declínio terminal da indústria alemã. Mas prova algo grave: a Europa já não pode assumir que o seu núcleo industrial ficará onde sempre esteve. Quando a maior empresa química do mundo coloca o investimento mais ambicioso da sua história a 9.000 quilómetros de casa, não estamos perante uma decisão de portefólio. Estamos perante um aviso. E quando a Alemanha deixa de acreditar que este continente é o melhor lugar para produzir o futuro, a Europa devia finalmente perguntar-se porque deixou de o ser.
Os dados utilizados neste artigo têm como fontes: BASF (comunicado oficial de inauguração do site de Zhanjiang, 26 de março de 2026); ifo Institute (Employment Barometer, março de 2026); Destatis e Eurostat (peso da indústria transformadora no VAB e crescimento do PIB alemão em 2025); VCI, Verband der Chemischen Industrie (relatório anual da indústria química alemã, 2025); IW Cologne, Institut der deutschen Wirtschaft (inquérito a cerca de 2.000 empresas, outono de 2025); OCDE (Economic Survey of Germany); Rhodium Group (relatório “Don’t Stop Believin’: The Inexorable Rise of German FDI in China”, 2024); Volkswagen Autoeuropa (dados de produção 2025); e International Trade Administration / U.S. Department of Commerce (perfil do sector automóvel português). A análise e as opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade do autor.